QUANDO ALGUÉM PERGUNTA A UM AUTOR, O QUE ESTE QUIS DIZER, É POR QUE UM DOS DOIS É BURRO.

MARIO QUINTANA

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Pior que o preconceito é a hipocrisia

Há pouco tempo um, um famoso jornalista foi pego em uma situação extremamente desagradável. Apresentando ao vivo, uma reportagem na qual funcionários da limpeza pública, os lixeiros, desejavam um feliz natal a população, foi flagrado, ao pensar ter o microfone desligado, fazendo um comentário visto como pejorativo e humilhante, sobre esta classe trabalhadora.
Isso já faz algum tempo, mas durante essa semana passada, na sala dos professores da escola onde leciono, o assunto voltou à tona, e acabei tomada por uma inquietação quase física, ao ouvir o quanto meus colegas comemoravam um suposto processo que estaria sendo movido contra ele. O grupo criticava a gafe do jornalista, dotados de um discurso ético quase inalcançável, e inabalável.
Ante tanta unanimidade, não pude me ater a manifestar minha indesejada opinião. (E é incrível, como as pessoas se assustam, quando são transtornadas em sua unanimidade).
__ Pior que o preconceito é a hipocrisia, disse, e então, com cara de espanto, alguns se viravam para mim, esperando que, contrariando a tal “ética”, eu me posicionasse a favor do jornalista.
A minha posição, no entanto, não é a favor de preconceitos, mas, sim, contra a hipocrisia. As pessoas se lançam em uma crítica com tom horrorizado quando ouvem este homem dizer que os lixeiros são a mais baixa categoria profissional do nosso país. Mas se esquecem que pior que dizer é pensar. E é exatamente assim que todos pensam. É fato que existem profissões e grande prestígio, enquanto outras são usadas, como forma de assustar crianças arredias aos estudos.
__ Se não estudar vai ser lixeiro. Muitos naquela sala, que levantaram seu dedo acusador, já disseram esta frase em vários momentos. E ninguém nega que pedreiro, empregada doméstica e professores são, entre outras, profissões de mínimo prestígio social.
Por isso ao invés de criticarmos estas falas, deveríamos usá-las para discutimos formas de acabarmos verdadeiramente com o preconceito no país.
Em tempos de “politicamente correto”, encontra-se formas de maquiar o preconceito e a discriminação que está presente na cultura do brasileiro de forma estrutural. Criam-se leis para punir a manifestação do racismo, e palavras para disfarçá-lo, mas seria mais digno entender que punir a clara manifestação do racismo, apesar de medida justa, não muda a forma que as pessoas pensam e de modo quase imperceptível, agem. E mudar a forma de dizer não muda, o que é dito.
É ridículo pensar que trocar o vocabulário vai resolver um problema de 500 anos. Se alguém diz: __ “Neguinho filho da puta”, é preconceituoso, pode ser preso sem possibilidade de fiança. Mas se diz “afrodescendentezinho filho de uma profissional do sexo”, está de forma clara e louvável, reconhecendo as origens raciais do garoto, e, “de quebra” a ocupação profissional de sua mãe.
De um tempo pra cá, decidiu-se que o brasileiro deveria ser “adestrado” ao politicamente correto, sendo assim, favela é comunidade, a não ser que a Regina Casé fale, bicha é homossexual, a não ser que o Pedro Bial use a palavra de forma poética, empregada doméstica é secretária doméstica, deficiente é portador de necessidades especiais e por aí vai... O incrível é que tais substituições vocabulares, em nada melhoraram a vida do morador das tais “comunidades”, reduziram a discriminação aos homossexuais, valorizaram os salários e as condições de trabalho das “secretárias domésticas”, e nem incluiram de fato o “portador de necessidades especiais”, (termo que será trocado para “portador de deficiência”).
Assim, o que deve nos indignar não é a fala infeliz de alguns, mas o pensamento e as ações veladas de segregação social que ela incita.
Não falar sobre os nossos preconceitos, guardá-lo debaixo do travesseiro, ou por trás das palavras cuidadosamente selecionadas não reduz a discriminação, simplesmente adia a discussão.
Se em meio ao pensamento acadêmico derrubou-se a teoria “casa-grande e senzala”, que durante décadas negou a existência do racismo no Brasil, deveria ser derrubado com ela também a hipocrisia, que de forma sistêmica, atrasa o reconhecimento do princípio de igualdade, sobre o qual nosso Estado e nossa sociedade deveriam estar alicerçados.

Monique Pacheco
Professora e Bacharel em História pela PUC- MG
e-mail:moniquenajara.eu@ig.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário