Para mim não existe prova maior do quanto nosso país ainda é subdesenvolvido, do que o fato de sermos racistas. E antes que alguém tente se defender da generalização, reafirmo, somos racistas e negros.
Aliás, a primeira coisa que devemos esclarecer é que, somos racistas, exatamente por sermos negros. Afinal, quem quer ser negro nesse país? Quem quer fazer parte dessa história de exclusão e exploração que persiste em se reproduzir? Quem quer ser herdeiro desse legado de apartação? Ninguém. Por isso preferimos ser pardos, morenos, morenos claros, morenos “chegados”, morenos “fechados”, “cor de jambo”, “marrom bom bom”... Orgulhamo-nos de termos filhos e netos de cabelos lisos, e nos sentimos premiados, por, ora ou outra, recebermos em nossa árvore genealógica um descendente de olhos azuis.
Clarear a pele ao longo das gerações é, para nossa sociedade, ir aos poucos, alcançando uma redenção, uma chance de vencer o preconceito. O próprio preconceito, e o preconceito de uma minoria de pele clara, que se diz branca, se pensa superior, e acaba por ser privilegiada.
Sim, somos racistas, apesar das incansáveis discussões cientificas sobre a questionável existência de raças dentre a espécie humana, somos etnocêntricos, apesar de nosso fenótipo não ser definido, e assim não ser comum a nenhuma determinada etnia, e somos eurocentricos, apesar de a maioria esmagadora do país, nem de longe se enquadrar no nórdigo padrão de beleza europeu.
Podemos até entender, o porquê de tantos paradigmas culturais, apenas com uma simples análise histórica do nosso país. Mas o que não podemos definitivamente é prever por quanto tempo ainda manteremos essa cultura ignorante e hipócrita.
Claro, reconheço, a tentativa de vários setores sociais de encarar o problema de frente, e dar início a uma discussão sobre o tema, com o intuito de tentar eliminar sistematicamente o “racismo” no país, através de discursos e ações de afirmação racial. Mas temo pela possibilidade de uma bipolarização, que ao invés de reconhecer a identidade do brasileiro acabe por reproduzir os errôneos preconceitos raciais ao tentar caracterizar as pessoas de forma a reafirmar indefinidas diferenças, na inútil tentativa de diferenciar negros de brancos.
A tal questão racial no país é hoje, uma dialética entre uma simples e ao mesmo tempo complexa questão de cor de pele, traços faciais e textura de cabelo. Outro dia, ao participar de um curso que propunha projetos de combate ao racismo nas escolas, me preocupei ao escutar uma das palestrantes afirmarem que em um dos congressos em que participou, só havia uma pessoa negra,ela. Tive que confirmar com o colega ao lado se o tal congresso teria sido mesmo no Brasil, e após ouvir que sim, que acontecera em São Paulo, acabei por lamentar não ter tido a oportunidade de questioná-la sobre os parâmetros usados por ela para identificar quem é de fato negro nesse país. Sinceramente, acho muito difícil fazer esse tipo de separação em um país como o nosso. E também não acredito que tal separação traria solução ao nosso problema.
Nosso racismo só irá acabar quando nos livrarmos dessa ignorância classificatória, que se prende em tonalidades e graduações de cores. Somos todos, independente dessa tal tonalidade de pele, e textura dos cabelos, brasileiros, pobres, subdesenvolvidos, oprimidos e escravos de nossa colonização católica e pró elitista. Se todo camburão tem algo de um navio negreiro, nós, brasileiros pobres, independente da cor, estamos a bordo desse camburão. Embarcamos nessa canoa furada, chamada desigualdade social.
Ser racista em um país de mestiços acaba por nos condenar a viver em uma constante guerra civil, muito semelhante àquelas que se passam em vários países da África, e que vivemos por condenar e tentar entender. Negros, pobres e explorados se matando enquanto brancos e ricos se beneficiam de suas mortes. Não somos melhores que eles, somos iguais, com a simples diferença que eles se destroem porque acreditam em suas verdades, e nós por que insistimos em cultuar nossas mentiras.
Monique Pacheco
Professora e Bacharel em História pela PUC- MG
e-mail:moniquenajara.eu@ig.com.br
ESTE BLOG TEM COMO OBJETIVO PARTILHAR ALGUMAS OPINIÕES, CRÍTICAS E REFLEXÕES SOBRE DIVERSOS TEMAS COMO, EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E POLÍTICA, SEJAM BEM VINDOS...
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MARIO QUINTANA
MARIO QUINTANA
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terça-feira, 4 de maio de 2010
Até quando seremos racistas?
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Pior que o preconceito é a hipocrisia
Há pouco tempo um, um famoso jornalista foi pego em uma situação extremamente desagradável. Apresentando ao vivo, uma reportagem na qual funcionários da limpeza pública, os lixeiros, desejavam um feliz natal a população, foi flagrado, ao pensar ter o microfone desligado, fazendo um comentário visto como pejorativo e humilhante, sobre esta classe trabalhadora.
Isso já faz algum tempo, mas durante essa semana passada, na sala dos professores da escola onde leciono, o assunto voltou à tona, e acabei tomada por uma inquietação quase física, ao ouvir o quanto meus colegas comemoravam um suposto processo que estaria sendo movido contra ele. O grupo criticava a gafe do jornalista, dotados de um discurso ético quase inalcançável, e inabalável.
Ante tanta unanimidade, não pude me ater a manifestar minha indesejada opinião. (E é incrível, como as pessoas se assustam, quando são transtornadas em sua unanimidade).
__ Pior que o preconceito é a hipocrisia, disse, e então, com cara de espanto, alguns se viravam para mim, esperando que, contrariando a tal “ética”, eu me posicionasse a favor do jornalista.
A minha posição, no entanto, não é a favor de preconceitos, mas, sim, contra a hipocrisia. As pessoas se lançam em uma crítica com tom horrorizado quando ouvem este homem dizer que os lixeiros são a mais baixa categoria profissional do nosso país. Mas se esquecem que pior que dizer é pensar. E é exatamente assim que todos pensam. É fato que existem profissões e grande prestígio, enquanto outras são usadas, como forma de assustar crianças arredias aos estudos.
__ Se não estudar vai ser lixeiro. Muitos naquela sala, que levantaram seu dedo acusador, já disseram esta frase em vários momentos. E ninguém nega que pedreiro, empregada doméstica e professores são, entre outras, profissões de mínimo prestígio social.
Por isso ao invés de criticarmos estas falas, deveríamos usá-las para discutimos formas de acabarmos verdadeiramente com o preconceito no país.
Em tempos de “politicamente correto”, encontra-se formas de maquiar o preconceito e a discriminação que está presente na cultura do brasileiro de forma estrutural. Criam-se leis para punir a manifestação do racismo, e palavras para disfarçá-lo, mas seria mais digno entender que punir a clara manifestação do racismo, apesar de medida justa, não muda a forma que as pessoas pensam e de modo quase imperceptível, agem. E mudar a forma de dizer não muda, o que é dito.
É ridículo pensar que trocar o vocabulário vai resolver um problema de 500 anos. Se alguém diz: __ “Neguinho filho da puta”, é preconceituoso, pode ser preso sem possibilidade de fiança. Mas se diz “afrodescendentezinho filho de uma profissional do sexo”, está de forma clara e louvável, reconhecendo as origens raciais do garoto, e, “de quebra” a ocupação profissional de sua mãe.
De um tempo pra cá, decidiu-se que o brasileiro deveria ser “adestrado” ao politicamente correto, sendo assim, favela é comunidade, a não ser que a Regina Casé fale, bicha é homossexual, a não ser que o Pedro Bial use a palavra de forma poética, empregada doméstica é secretária doméstica, deficiente é portador de necessidades especiais e por aí vai... O incrível é que tais substituições vocabulares, em nada melhoraram a vida do morador das tais “comunidades”, reduziram a discriminação aos homossexuais, valorizaram os salários e as condições de trabalho das “secretárias domésticas”, e nem incluiram de fato o “portador de necessidades especiais”, (termo que será trocado para “portador de deficiência”).
Assim, o que deve nos indignar não é a fala infeliz de alguns, mas o pensamento e as ações veladas de segregação social que ela incita.
Não falar sobre os nossos preconceitos, guardá-lo debaixo do travesseiro, ou por trás das palavras cuidadosamente selecionadas não reduz a discriminação, simplesmente adia a discussão.
Se em meio ao pensamento acadêmico derrubou-se a teoria “casa-grande e senzala”, que durante décadas negou a existência do racismo no Brasil, deveria ser derrubado com ela também a hipocrisia, que de forma sistêmica, atrasa o reconhecimento do princípio de igualdade, sobre o qual nosso Estado e nossa sociedade deveriam estar alicerçados.
Monique Pacheco
Professora e Bacharel em História pela PUC- MG
e-mail:moniquenajara.eu@ig.com.br
Isso já faz algum tempo, mas durante essa semana passada, na sala dos professores da escola onde leciono, o assunto voltou à tona, e acabei tomada por uma inquietação quase física, ao ouvir o quanto meus colegas comemoravam um suposto processo que estaria sendo movido contra ele. O grupo criticava a gafe do jornalista, dotados de um discurso ético quase inalcançável, e inabalável.
Ante tanta unanimidade, não pude me ater a manifestar minha indesejada opinião. (E é incrível, como as pessoas se assustam, quando são transtornadas em sua unanimidade).
__ Pior que o preconceito é a hipocrisia, disse, e então, com cara de espanto, alguns se viravam para mim, esperando que, contrariando a tal “ética”, eu me posicionasse a favor do jornalista.
A minha posição, no entanto, não é a favor de preconceitos, mas, sim, contra a hipocrisia. As pessoas se lançam em uma crítica com tom horrorizado quando ouvem este homem dizer que os lixeiros são a mais baixa categoria profissional do nosso país. Mas se esquecem que pior que dizer é pensar. E é exatamente assim que todos pensam. É fato que existem profissões e grande prestígio, enquanto outras são usadas, como forma de assustar crianças arredias aos estudos.
__ Se não estudar vai ser lixeiro. Muitos naquela sala, que levantaram seu dedo acusador, já disseram esta frase em vários momentos. E ninguém nega que pedreiro, empregada doméstica e professores são, entre outras, profissões de mínimo prestígio social.
Por isso ao invés de criticarmos estas falas, deveríamos usá-las para discutimos formas de acabarmos verdadeiramente com o preconceito no país.
Em tempos de “politicamente correto”, encontra-se formas de maquiar o preconceito e a discriminação que está presente na cultura do brasileiro de forma estrutural. Criam-se leis para punir a manifestação do racismo, e palavras para disfarçá-lo, mas seria mais digno entender que punir a clara manifestação do racismo, apesar de medida justa, não muda a forma que as pessoas pensam e de modo quase imperceptível, agem. E mudar a forma de dizer não muda, o que é dito.
É ridículo pensar que trocar o vocabulário vai resolver um problema de 500 anos. Se alguém diz: __ “Neguinho filho da puta”, é preconceituoso, pode ser preso sem possibilidade de fiança. Mas se diz “afrodescendentezinho filho de uma profissional do sexo”, está de forma clara e louvável, reconhecendo as origens raciais do garoto, e, “de quebra” a ocupação profissional de sua mãe.
De um tempo pra cá, decidiu-se que o brasileiro deveria ser “adestrado” ao politicamente correto, sendo assim, favela é comunidade, a não ser que a Regina Casé fale, bicha é homossexual, a não ser que o Pedro Bial use a palavra de forma poética, empregada doméstica é secretária doméstica, deficiente é portador de necessidades especiais e por aí vai... O incrível é que tais substituições vocabulares, em nada melhoraram a vida do morador das tais “comunidades”, reduziram a discriminação aos homossexuais, valorizaram os salários e as condições de trabalho das “secretárias domésticas”, e nem incluiram de fato o “portador de necessidades especiais”, (termo que será trocado para “portador de deficiência”).
Assim, o que deve nos indignar não é a fala infeliz de alguns, mas o pensamento e as ações veladas de segregação social que ela incita.
Não falar sobre os nossos preconceitos, guardá-lo debaixo do travesseiro, ou por trás das palavras cuidadosamente selecionadas não reduz a discriminação, simplesmente adia a discussão.
Se em meio ao pensamento acadêmico derrubou-se a teoria “casa-grande e senzala”, que durante décadas negou a existência do racismo no Brasil, deveria ser derrubado com ela também a hipocrisia, que de forma sistêmica, atrasa o reconhecimento do princípio de igualdade, sobre o qual nosso Estado e nossa sociedade deveriam estar alicerçados.
Monique Pacheco
Professora e Bacharel em História pela PUC- MG
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