A tragédia grega, o circo romano e o Estado Moderno
O que levam centenas de pessoas saírem de suas casas de madrugada, pegarem duas, três conduções e ficarem o dia inteiro, em frente um fórum? O sol quente, a chuva forte, o aglomerado de pessoas famintas, cansadas, repetindo a mesma rotina desgastante por dois, três, cinco dias.
Não, não é trabalho, não estão doando nada, essas pessoas estão ali protagonizando apenas mais um espetáculo macabro, digno de uma tragédia grega somada ao prazer sádico de um espetáculo romano.
A mídia deu inicio ao show anunciado e esperado a pelo menos dois anos. O caso é realmente pavoroso, um casal de classe média alta, gozando de todos os confortos aos quais apenas uma pequena parcela da população tem acesso, comete um crime bárbaro. Sem nenhum motivo aparente esganam e defenestram uma linda e meiga criança de apenas cinco anos de idade.
Trágico? Mais do que isso, cruel. Um crime bárbaro cometido ou supostamente cometido, por um casal de jovens instruídos, bem educados, representantes da minoria bem sucedida do país.
O que choca é que apesar das frases de repúdio proferidas, fica claro perceber o quanto as pessoas gostam dessas desgraças urbanas. As pessoas estão sedentas por tragédias. O que se viu nesses cinco dias de julgamento foi suficiente para entendermos o porquê das arenas romanas fazerem tanto sucesso entre seus contemporaneos. Pão e circo para o povo. Um assassinato desses por mês, os políticos vão à forra, ninguém dará a mínima atenção a denuncias de corrupção, mensalão, dinheiro na cueca, enfim... Nada seduzirá tanto a atenção da marginalia que a possibilidade de ver sangue jorrando.
Os gritos eram por justiça, mas ninguém que estava ali queria justiça, esse era apenas um pretexto, ninguém se sacrifica tanto por justiça nesse país, se fosse assim não estaria o Brasil mergulhado nesse esgoto de impunidades. O que as pessoas queriam era o show, o espetáculo, a carnificina.
As cenas divulgadas na TV eram de um paradoxo anacrônico indesvendável. O casal, ante uma das mais importantes instituições do Estado moderno, respondendo judicialmente por seu inexplicável e imperdoável crime. Do lado de fora uma multidão de justiceiros anciosos pela mínima oportunidade de aplicar a Lei de Talião.
A mídia, como de se esperar, cobrindo o espetáculo, dando a essas pessoas o direito de se manifestarem. Todos querendo a palavra, em uma nobre manifestão de altruísmo e de interesse por justiça, principalmente se justiça significasse a cabeça do casal.
_ queremos justiça, dizia um.
_ o crime é horrível, eles têm que ser condenados, dizia outro.
_ eu sou mãe, me emociono com essas coisas.
_ queremos que se faça a justiça, não aceitamos impunidade.
Chega a ser engraçado. Uma grande parte daquelas pessoas que estavam esperando a oportunidade de atirar uma pedra, também tem filhos. Uma grande parte já deve, em mais de um episódio, ter pesado a mão sobre esse filho. A Jatobá também fez isso, mas pesou um pouco mais, era a madrasta, não tinha esse direito. Mas os que estavam do lado de fora do fórum, sim, se sentiam no direito de apontar o dedo, de levantar a voz e agredir, casal, advogado do casal, pais mães e até os filhos do casal se lhe fosse dado oportunidades.
Muitos sacrificando suas crianças naquela "tocaia" armada há dias. Crianças expostas ao cansaço desnecessário, movidos pelo sadismo de seus pais.
Outras ficaram em suas casas, com quem? Com um vizinho, com o pai, a madrasta, não,não importa onde e com quem seus filhos estavam. O que importa e que a garotinha está morta, e não a confissão, não há testemunha, há apenas o poder das investigações da retórica e do convencimento. O veredito já estava dado. Mas o espetáculo ainda não havia se consumado. Faltava um elemento básico, as cabeças rolando.
Não era apenas os "justiceiros" que se divertiam, ambulantes de todas as partes garantiam um extra vendendo camisetas com fotos da criança, medalhinhas, churrasquinhos de gato, refrigerante, cerveja, água, sabe-se o que mais era vendido ali. Podia-se vender tudo, tinha gente para comprar. Comprar inclusive qualquer versão acusadora, que satisfizesse o desejo daquelas pessoas de que realmente fossem aqueles dois os culpados. Uma terceira pessoa não seria interessante, não daria ares de tragédia grega, não haveria o espetáculo romano. Seria apenas mais um caso.
O povo queria uma confissão, que envolvesse rituais macabros, requintes de crueldade, torturas ainda maiores que as já descritas pelos peritos. Queriam uma reconstituição do crime dignas de filme de terror. Para quê? Para se sentirem bem, para se sentirem bons pais, apesar das inúmeras falhas e agressões diárias que cometem à seus filhos, em uma comparação à Alexandre Nardone e Ana Carolina Jatobá, todo mundo, de repente, se torna exemplo de equilíbrio, dedicação e amor.
Monique Pacheco
Professora e bacharel em História pela PUC-MG
e-mail: moniquenajara.eu@ig.com.br
blog:moniquenajaraapacheco.blogspot.com
ESTE BLOG TEM COMO OBJETIVO PARTILHAR ALGUMAS OPINIÕES, CRÍTICAS E REFLEXÕES SOBRE DIVERSOS TEMAS COMO, EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E POLÍTICA, SEJAM BEM VINDOS...
QUANDO ALGUÉM PERGUNTA A UM AUTOR, O QUE ESTE QUIS DIZER, É POR QUE UM DOS DOIS É BURRO.
MARIO QUINTANA
MARIO QUINTANA
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
domingo, 13 de fevereiro de 2011
E aí, vamos ou não vamos mudar o mundo?
Eu estou cansada de pessoas egoístas. Cansadas de pessoas que empurram para os outros a responsabilidades sobre as mazelas do mundo. Fico pensando em quando eu era criança, em como queria mudar o mundo. Ser ministra da educação, presidente do Brasil, embaixadora da ONU. Agente cresce e os sonhos vão mudando, as coisas tomam outras proporções e começamos a dar graças a Deus por mudarmos nossas próprias vidas. Foi assim comigo, é assim com muita gente. Deixamos a tarefa de mudar o mundo para os outros, e não nos responsabilizamos de forma ampla pelas nossas atitudes mesquinhas, nossos individualismos, nossos pequenos delitos.
Até o dia que paramos par pensar e percebemos que dá pra fazer. Dá para mudar o mundo sem que sejamos mundialmente ou nacionalmente conhecidos. Não precisamos ser conhecidos nem no nosso bairro. Precisamos apenas nos conhecer. Conhecer nossos valores, nossas possibilidades, nossos padrões éticos.
Não se muda o mundo mantendo a miséria, menos ainda pensando que a miséria está á seu favor. Conheço muitos professores que acham vantagens no desinteresse de seus alunos, dizem de boca cheia: “isso mesmo, não estudem não, quando eu saio a noite eu preciso de gente como vocês para olhar meu carro, preciso de gente como vocês para me servir, para limpar minha casa a preços baixos”. E é por isso que eu me enfureço, é por isso que acho a existência do flanelinha o cúmulo do absurdo. Um desagravo a dignidade humana.
Não sou elitista. Preconceituosa, talvez, como tantos, como todos. Preconceituosa com gente que se acostuma com a desigualdade social. Eu não me acostumo, Eu acho uma agressão, a quem está por baixo, a quem está no topo, a toda a sociedade. Eu penso que ter pena e dar esmolas não resolvem, piora a situação. O correto não é remediar. É resolver definitivamente.
Comprar balas no sinal não é distribuir renda. Eu não quero ser servida pela miséria, eu não quero explorar o outro, eu não preciso ver alguém na pior para me sentir bem. O que eu tenho feito para mudar o mundo? Pouco, mas o que eu dou conta eu faço. Eu não compactuo com coisa errada. Eu não busco de subterfúgios para me beneficiar. Eu não sou do tipo que diz “ pra que eu vou obedecer essa regra se ninguém obedece?”. Eu obedeço e felizmente conheço muita gente como eu, muito melhor ainda que eu. Eu acredito na lei. Não acho nossas leis injustas, acho que elas não são respeitadas.
O Brasil é o país do “jeitinho”, da lei do mais esperto, do menor esforço? Até quando? Quando vamos nos responsabilizar de verdade? Quando vamos parar de jogar lixo pela janela? De votar em candidatos que fazem “boca de urna”, por que todo mundo faz?
Sei que vai me perguntar sobre o mau exemplo de nossos legisladores. Sobre suas condutas duvidosas, sobre seu talento em beneficiar-se do dinheiro público, e sei que suas atitudes criminosas e a impunidade que lhes cerca são fatores de revolta e de descrédito em nosso poder de mudança, mas eu tento fazer a minha parte. Eu acredito na mudança e principalmente na mudança que vem através da educação. Eu sou grata ao que a escola fez por mim. Por isso não aceito que crianças estejam “olhando” carros em troca de moedas quando deveriam estar estudando. É por isso que insisto tanto com meus alunos, não os quero ver flanelinhas, não quero vê-los lavando meu carro. Fazendo malabarismo no sinal. Quero despertar neles o desejo de ter mais, de ser mais, de servir a sociedade de forma digna. De forma útil, recebendo salários justos que lhes garantam uma vida farta, em todos os sentidos. Não acho que todas as pessoas tenham que ter curso superior. Mas acho que todas que o querem devem ter direito a uma formação de qualidade e a condições de exercer sua profissão. Acho que todos devem ter pelo menos condições de sonhar, de desejar algo maior que as limitações impostas.
Por isso, não compro balas na rua. Não dou esmolas, não fico com pena. Fico indignada. Prefiro assim. Quando sentada em um bar á noite me aparece uma criança vendendo balas com aquele ensaiado discurso: “eu podia estar roubando, eu podia estar matando...”, eu não cedo. Mesmo sabendo que seria mais cômodo ceder. Dar logo o dinheiro e dormir com sensação cristã de ter feito o bem. Mas eu não o faço. Eu pergunto pela escola, eu a lembro que ela não deveria estar naquele lugar muito menos naquele horário. Eu ameaço chamar o Conselho Tutelar se ela não for embora. Ela sai. Não sou ingênua, sei que não vai para casa, vai para outro bar, mas se todos fizessem o mesmo, quem sabe... Se todos cobrassem pela sua frequência á escola, se todos a informassem de seus direitos, se todos chamassem á responsabilidade os órgãos públicos responsáveis, se todos incomodassem o Estado na cobrança por seus direitos...
Eu não aceito o flanelinha apesar de saber que ele é uma vítima do sistema. Aceitá-lo seria legitimar sua função, seria resignar-me a sua condição. Não aceito. Quando peço providencias do Estado não estou querendo que sejam chacinados ou presos, mas que lhe sejam oferecidas outras possibilidades. E que essas outras possibilidades sejam oferecidas também ás crianças e jovens que ingressam diariamente no mundo do tráfico, na criminalidade.
Não sou contra o trabalhador informal. Muito pelo contrário, acho muito legítimo o trabalho honesto daqueles que querem sobreviver, que querem viver à custa de seu próprio esforço apesar das adversidades que lhe são impostas. Sou extremamente grata aos catadores de papel e latinha pelo seu trabalho, pelo serviço que prestam á sociedade, mas fico indignada com o pouco que recebem em troca, pelas péssimas condições de vida a que são submetidos. Mereciam receber muito mais, ter seu trabalho muito mais valorizado. Não gosto de pensar que a sociedade se beneficia da sua miséria. E por isso, e só por isso, lutarei com o que eu puder para que meus alunos não se tornem catadores de papel. Não é justo que a desigualdade social prevaleça. Não no país do pré-sal. Não é justo que pessoas morram de malária em cidades como São Paulo. Não é justo que se morra de malária em canto nenhum desse país. Não é justo que se morra de pobreza em nenhum lugar do mundo.
Pode me chamar de elitista ou qualquer um desses rótulos que se dá para quem não gosta da miséria. Eu não gosto. Eu não concordo com sua existência em uma economia como a do Brasil. Eu ainda acredito em padrões de vida escandinavos. Acredito em uma sociedade justa, onde as pessoas não se diferenciem pelo que comem, mas pelo que pensam. Onde a todos seja dada a oportunidade de pensar. Onde todos tenham moradias seguras e confortáveis, não é pedir de mais; direito e condições de escolher uma profissão e viverem da dignidade de seu trabalho; onde a todos seja dada uma condição igualitária de saúde para que, atendimento médico e odontológico não seja privilégio de alguns; onde as melhores escolas não sejam oferecidas aos poucos que possam pagar, mas a todos que dela necessitam para adquirirem oportunidades iguais e liberdade social.
Podem dizer que levaremos mil anos para alcançar esse patamar social, não importo. Importo quando me dizem que é impossível. Que jamais chegaremos lá. Que jamais mudaremos essa situação. Não quero e não vou me acomodar. Não aceito que você se acomode também.
Monique Pacheco
Professora e Bacharel em História pela PUC-MG
e-mail: moniquenajara.eu@ig.com.br
blog:moniquenajaraapacheco.blogspot.com
Até o dia que paramos par pensar e percebemos que dá pra fazer. Dá para mudar o mundo sem que sejamos mundialmente ou nacionalmente conhecidos. Não precisamos ser conhecidos nem no nosso bairro. Precisamos apenas nos conhecer. Conhecer nossos valores, nossas possibilidades, nossos padrões éticos.
Não se muda o mundo mantendo a miséria, menos ainda pensando que a miséria está á seu favor. Conheço muitos professores que acham vantagens no desinteresse de seus alunos, dizem de boca cheia: “isso mesmo, não estudem não, quando eu saio a noite eu preciso de gente como vocês para olhar meu carro, preciso de gente como vocês para me servir, para limpar minha casa a preços baixos”. E é por isso que eu me enfureço, é por isso que acho a existência do flanelinha o cúmulo do absurdo. Um desagravo a dignidade humana.
Não sou elitista. Preconceituosa, talvez, como tantos, como todos. Preconceituosa com gente que se acostuma com a desigualdade social. Eu não me acostumo, Eu acho uma agressão, a quem está por baixo, a quem está no topo, a toda a sociedade. Eu penso que ter pena e dar esmolas não resolvem, piora a situação. O correto não é remediar. É resolver definitivamente.
Comprar balas no sinal não é distribuir renda. Eu não quero ser servida pela miséria, eu não quero explorar o outro, eu não preciso ver alguém na pior para me sentir bem. O que eu tenho feito para mudar o mundo? Pouco, mas o que eu dou conta eu faço. Eu não compactuo com coisa errada. Eu não busco de subterfúgios para me beneficiar. Eu não sou do tipo que diz “ pra que eu vou obedecer essa regra se ninguém obedece?”. Eu obedeço e felizmente conheço muita gente como eu, muito melhor ainda que eu. Eu acredito na lei. Não acho nossas leis injustas, acho que elas não são respeitadas.
O Brasil é o país do “jeitinho”, da lei do mais esperto, do menor esforço? Até quando? Quando vamos nos responsabilizar de verdade? Quando vamos parar de jogar lixo pela janela? De votar em candidatos que fazem “boca de urna”, por que todo mundo faz?
Sei que vai me perguntar sobre o mau exemplo de nossos legisladores. Sobre suas condutas duvidosas, sobre seu talento em beneficiar-se do dinheiro público, e sei que suas atitudes criminosas e a impunidade que lhes cerca são fatores de revolta e de descrédito em nosso poder de mudança, mas eu tento fazer a minha parte. Eu acredito na mudança e principalmente na mudança que vem através da educação. Eu sou grata ao que a escola fez por mim. Por isso não aceito que crianças estejam “olhando” carros em troca de moedas quando deveriam estar estudando. É por isso que insisto tanto com meus alunos, não os quero ver flanelinhas, não quero vê-los lavando meu carro. Fazendo malabarismo no sinal. Quero despertar neles o desejo de ter mais, de ser mais, de servir a sociedade de forma digna. De forma útil, recebendo salários justos que lhes garantam uma vida farta, em todos os sentidos. Não acho que todas as pessoas tenham que ter curso superior. Mas acho que todas que o querem devem ter direito a uma formação de qualidade e a condições de exercer sua profissão. Acho que todos devem ter pelo menos condições de sonhar, de desejar algo maior que as limitações impostas.
Por isso, não compro balas na rua. Não dou esmolas, não fico com pena. Fico indignada. Prefiro assim. Quando sentada em um bar á noite me aparece uma criança vendendo balas com aquele ensaiado discurso: “eu podia estar roubando, eu podia estar matando...”, eu não cedo. Mesmo sabendo que seria mais cômodo ceder. Dar logo o dinheiro e dormir com sensação cristã de ter feito o bem. Mas eu não o faço. Eu pergunto pela escola, eu a lembro que ela não deveria estar naquele lugar muito menos naquele horário. Eu ameaço chamar o Conselho Tutelar se ela não for embora. Ela sai. Não sou ingênua, sei que não vai para casa, vai para outro bar, mas se todos fizessem o mesmo, quem sabe... Se todos cobrassem pela sua frequência á escola, se todos a informassem de seus direitos, se todos chamassem á responsabilidade os órgãos públicos responsáveis, se todos incomodassem o Estado na cobrança por seus direitos...
Eu não aceito o flanelinha apesar de saber que ele é uma vítima do sistema. Aceitá-lo seria legitimar sua função, seria resignar-me a sua condição. Não aceito. Quando peço providencias do Estado não estou querendo que sejam chacinados ou presos, mas que lhe sejam oferecidas outras possibilidades. E que essas outras possibilidades sejam oferecidas também ás crianças e jovens que ingressam diariamente no mundo do tráfico, na criminalidade.
Não sou contra o trabalhador informal. Muito pelo contrário, acho muito legítimo o trabalho honesto daqueles que querem sobreviver, que querem viver à custa de seu próprio esforço apesar das adversidades que lhe são impostas. Sou extremamente grata aos catadores de papel e latinha pelo seu trabalho, pelo serviço que prestam á sociedade, mas fico indignada com o pouco que recebem em troca, pelas péssimas condições de vida a que são submetidos. Mereciam receber muito mais, ter seu trabalho muito mais valorizado. Não gosto de pensar que a sociedade se beneficia da sua miséria. E por isso, e só por isso, lutarei com o que eu puder para que meus alunos não se tornem catadores de papel. Não é justo que a desigualdade social prevaleça. Não no país do pré-sal. Não é justo que pessoas morram de malária em cidades como São Paulo. Não é justo que se morra de malária em canto nenhum desse país. Não é justo que se morra de pobreza em nenhum lugar do mundo.
Pode me chamar de elitista ou qualquer um desses rótulos que se dá para quem não gosta da miséria. Eu não gosto. Eu não concordo com sua existência em uma economia como a do Brasil. Eu ainda acredito em padrões de vida escandinavos. Acredito em uma sociedade justa, onde as pessoas não se diferenciem pelo que comem, mas pelo que pensam. Onde a todos seja dada a oportunidade de pensar. Onde todos tenham moradias seguras e confortáveis, não é pedir de mais; direito e condições de escolher uma profissão e viverem da dignidade de seu trabalho; onde a todos seja dada uma condição igualitária de saúde para que, atendimento médico e odontológico não seja privilégio de alguns; onde as melhores escolas não sejam oferecidas aos poucos que possam pagar, mas a todos que dela necessitam para adquirirem oportunidades iguais e liberdade social.
Podem dizer que levaremos mil anos para alcançar esse patamar social, não importo. Importo quando me dizem que é impossível. Que jamais chegaremos lá. Que jamais mudaremos essa situação. Não quero e não vou me acomodar. Não aceito que você se acomode também.
Monique Pacheco
Professora e Bacharel em História pela PUC-MG
e-mail: moniquenajara.eu@ig.com.br
blog:moniquenajaraapacheco.blogspot.com
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Vamos combinar: flanelinha não é trabalhador informal, é bandido socialmente aceito.
Eu não sei você, mas eu não aguento mais ser refém de flanelinha. Não é exagero, somos reféns de um sistema diário de extorsão tão socialmente aceito que algumas cidades, como Belo Horizonte, já estão chegando ao cúmulo de institucionalizar essa “ocupação”. Pelo amor de Deus, flanelinha não pode e nem deve ser visto como trabalhador informal. Que tipo de trabalhador te obriga a usar os seus serviços? Não existem feirantes que te obrigam a comprar seus produtos, ou uma profissional do sexo que obriga alguém a transar com ela, mas o flanelinha te obriga a aceitar que ele “olhe” seu carro. Ou você conhece alguém que já se sentiu em condições de recusar o “favor” de um flanelinha?
Somos coagidos a dar dinheiro diariamente á esses bandidos. E esqueça aquelas pratinhas das quais você estava doido para se livrar, dependendo do lugar onde você estacionar seu carro o “dono do ponto” pode lhe cobrar de cinco a dez reais e exigir pagamento adiantado. E experimente dizer que não tem, ou que a rua não é dele. Um dia desses testemunhei, indignada, uma tentativa de argumento com um desses “trabalhadores”. Um rapaz, na tentativa de arrancar seu carro e após constatar que não tinha dinheiro para o tal “pagamento” foi obrigado a escutar frases absurdas como: “Não tem dinheiro, porque parou aqui?” “ Você senta em um bar e toma cerveja se não tem dinheiro para pagar?” “Esse é o meu trabalho, você está me roubando”. Fiquei perplexa, ainda mais após a tentativa do rapaz de chamar à sua defesa um policial que estava passando. “ Dá logo o dinheiro do cara e agente resolve isso” disse o policial. O rapaz ficou tão confuso, que sem chance de defesa, e talvez por falta de certeza sobre quem estava sendo roubado, teve que pedir o prestativo flanelinha para aguardar enquanto ele ia a um caixa rápido fazer o saque para o tal pagamento, sob ameaça de ter seu carro riscado. Acho que se as coisas continuarem como estão a procura por um caixa rápido será desnecessária, não demora e esses “profissionais liberais” estarão armados com maquinetas de cartão de crédito.
Fico pensando em como as coisas chegaram a esse ponto. Em quando esses marginais urbanos se apropriaram das ruas sem que nós, cidadãos de direito, pagadores de impostos tenhamos feito nada para impedir. O pior é que poucas pessoas enxergam a gravidade dessa questão. Um grande número de motoristas chegam ao cúmulo de achar vantagens nesse tipo de “prestação de serviço”, pensam ter seus carros realmente protegidos de furtos e roubos, e pior acham que custa mais barato manter o flanelinha que pagar estacionamento privado. Não deveria ser mais barato estacionar o carro na rua. Deveria ser gratuito, ou pelo menos legal, legal em todos os sentidos.
As pessoas fogem do parquímetro, e gastam mais com o “flanelímetro” e pior, alimentam essa rede de banditismo social que “emprega” pessoas de todas as idades. Pessoas que comungam de uma característica comum: sua disponibilidade para ganhar dinheiro fácil na famosa lei do menor esforço. Não defendo o parquímetro, mas o prefiro em relação á possibilidade de ficar criando “cobras para me picar”. Não sou elitista, nem direitista, nem liberalista ou qualquer outra coisa assim. Sou apenas uma cidadã cansada de ver pessoas incluindo o flanelinha em seu orçamento doméstico. O flanelinha não é um pobre coitado, é um bandido cotidianamente aceito, que se infiltrou na sociedade como baratas se infiltram em nossas casas. Você sempre acha que existe pragas mais ameaçadoras para combater, até que descobre que perdeu o controle sobre elas. Não temos mais controle sobre flanelinhas, eles se multiplicaram e dominaram as cidades de tal forma que agora vendem seus “pontos” para outros que queiram investir nesse lucrativo negócio.
Dia desses um babaca me disse com grande sorriso no rosto: “Conheço um professor, que fez faculdade e tudo, mas como ganhava pouco largou a escola e virou flanelinha, muito melhor, já comprou até um carro”. Que nojo dessa sociedade sem dignidade que se sente esperta, quando na verdade é desonesta. Me enoja também pensar que algumas pessoas acham isso legal. Não é legal, de forma nenhuma. Temos que dar um basta nessa situação. Como? O problema ficou grande demais para soluções simples, mas coragem para dizer não, participação política para cobrar intervenção do Estado, e principalmente responsabilidade social para não se render á lei do mais esperto, do mais fácil, do menor esforço seriam algumas alternativas na busca de soluções. Se tudo isso for impossível para você deve pelo menos, se indignar. Como diria sabiamente a colunista da Revista Época, Ruth de Aquino: “Uma pessoa indignada não é necessariamente uma pessoa raivosa. Indignar-se com a injustiça é estar alerta. (...) Felizes são os homens e as mulheres que não aceitam passivamente os malfeitos dos governos e dos indivíduos. A indiferença nos faz menos humanos. A resignação pode nos tornar cúmplices.” ( 27/12/10, p.138).
O que não dá é para achar normal. Para achar barato ser refém desses bandidos. Precisamos de políticas sociais melhores, e um sistema de segurança que realmente nos defenda desses assaltos homeopáticos. Mas até lá vou continuar me indignando, tentando ser um elo forte nessa corrente em busca de uma sociedade melhor, de uma vida mais digna para todos.
Somos coagidos a dar dinheiro diariamente á esses bandidos. E esqueça aquelas pratinhas das quais você estava doido para se livrar, dependendo do lugar onde você estacionar seu carro o “dono do ponto” pode lhe cobrar de cinco a dez reais e exigir pagamento adiantado. E experimente dizer que não tem, ou que a rua não é dele. Um dia desses testemunhei, indignada, uma tentativa de argumento com um desses “trabalhadores”. Um rapaz, na tentativa de arrancar seu carro e após constatar que não tinha dinheiro para o tal “pagamento” foi obrigado a escutar frases absurdas como: “Não tem dinheiro, porque parou aqui?” “ Você senta em um bar e toma cerveja se não tem dinheiro para pagar?” “Esse é o meu trabalho, você está me roubando”. Fiquei perplexa, ainda mais após a tentativa do rapaz de chamar à sua defesa um policial que estava passando. “ Dá logo o dinheiro do cara e agente resolve isso” disse o policial. O rapaz ficou tão confuso, que sem chance de defesa, e talvez por falta de certeza sobre quem estava sendo roubado, teve que pedir o prestativo flanelinha para aguardar enquanto ele ia a um caixa rápido fazer o saque para o tal pagamento, sob ameaça de ter seu carro riscado. Acho que se as coisas continuarem como estão a procura por um caixa rápido será desnecessária, não demora e esses “profissionais liberais” estarão armados com maquinetas de cartão de crédito.
Fico pensando em como as coisas chegaram a esse ponto. Em quando esses marginais urbanos se apropriaram das ruas sem que nós, cidadãos de direito, pagadores de impostos tenhamos feito nada para impedir. O pior é que poucas pessoas enxergam a gravidade dessa questão. Um grande número de motoristas chegam ao cúmulo de achar vantagens nesse tipo de “prestação de serviço”, pensam ter seus carros realmente protegidos de furtos e roubos, e pior acham que custa mais barato manter o flanelinha que pagar estacionamento privado. Não deveria ser mais barato estacionar o carro na rua. Deveria ser gratuito, ou pelo menos legal, legal em todos os sentidos.
As pessoas fogem do parquímetro, e gastam mais com o “flanelímetro” e pior, alimentam essa rede de banditismo social que “emprega” pessoas de todas as idades. Pessoas que comungam de uma característica comum: sua disponibilidade para ganhar dinheiro fácil na famosa lei do menor esforço. Não defendo o parquímetro, mas o prefiro em relação á possibilidade de ficar criando “cobras para me picar”. Não sou elitista, nem direitista, nem liberalista ou qualquer outra coisa assim. Sou apenas uma cidadã cansada de ver pessoas incluindo o flanelinha em seu orçamento doméstico. O flanelinha não é um pobre coitado, é um bandido cotidianamente aceito, que se infiltrou na sociedade como baratas se infiltram em nossas casas. Você sempre acha que existe pragas mais ameaçadoras para combater, até que descobre que perdeu o controle sobre elas. Não temos mais controle sobre flanelinhas, eles se multiplicaram e dominaram as cidades de tal forma que agora vendem seus “pontos” para outros que queiram investir nesse lucrativo negócio.
Dia desses um babaca me disse com grande sorriso no rosto: “Conheço um professor, que fez faculdade e tudo, mas como ganhava pouco largou a escola e virou flanelinha, muito melhor, já comprou até um carro”. Que nojo dessa sociedade sem dignidade que se sente esperta, quando na verdade é desonesta. Me enoja também pensar que algumas pessoas acham isso legal. Não é legal, de forma nenhuma. Temos que dar um basta nessa situação. Como? O problema ficou grande demais para soluções simples, mas coragem para dizer não, participação política para cobrar intervenção do Estado, e principalmente responsabilidade social para não se render á lei do mais esperto, do mais fácil, do menor esforço seriam algumas alternativas na busca de soluções. Se tudo isso for impossível para você deve pelo menos, se indignar. Como diria sabiamente a colunista da Revista Época, Ruth de Aquino: “Uma pessoa indignada não é necessariamente uma pessoa raivosa. Indignar-se com a injustiça é estar alerta. (...) Felizes são os homens e as mulheres que não aceitam passivamente os malfeitos dos governos e dos indivíduos. A indiferença nos faz menos humanos. A resignação pode nos tornar cúmplices.” ( 27/12/10, p.138).
O que não dá é para achar normal. Para achar barato ser refém desses bandidos. Precisamos de políticas sociais melhores, e um sistema de segurança que realmente nos defenda desses assaltos homeopáticos. Mas até lá vou continuar me indignando, tentando ser um elo forte nessa corrente em busca de uma sociedade melhor, de uma vida mais digna para todos.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Só pra lembrar, playstation não educa filhos.
Tenho pressa de vivermos no “tal tempo da delicadeza”, que Chico Buarque tão poeticamente profetiza. Mas parece que estamos muito longe disto. Se formos pensar nos filhos que estão sendo deixados para esse planeta, tão logo estaremos no tempo da boçalidade. Atualmente vivemos alienadamente, no tempo da imbecilidade, quando ser fútil e superficial premia por meritocracia.
Não sou mãe, não ainda, talvez por isso as pessoas fiquem irritadas quando critico alguns métodos de educação que tenho presenciado nas escolas por onde trabalho. “ É fácil dizer, você não é mãe”, “ É fácil por a culpa nos pais.” Escuto essas frases, sempre que chamo o pai ou mãe de um dos meus alunos à sua responsabilidade legal de zelar pela educação de seus filhos. Mas garanto que não precisa ser pai ou mãe para saber que alimentar hábitos de consumo exagerados, não cobrar responsabilidades, não impor limites, e não dar carinho, torna todo o resultado do processo de formação humana comprometido.
Estamos formando jovens intolerantes, insensíveis e criminosos. Parece fácil falar sobre isso quando lidamos com pessoas pobres, pretas e faveladas, a sociedade preconceituosa em que vivemos parece já esperar que desse grupo de excluídos saiam predadores sociais. No entanto o terreno se torna mais arenoso quando os tais predadores sociais são filhos da classe média, pessoas de pele clara, de carros novos, que estudaram em boas escolas, que se entupiram de danoninho, que ganharam os melhores presentes de Natal.
Na última terça-feira, (dia 8), um professor universitário de 39 anos foi vítima de um desses predadores. Assassinado em seu local de trabalho com requintes de torturas. Seu algoz? Hamilton Loyola Caíres, um jovem “universiotário”, que já havia sido expulso de outra faculdade por agressão a um professor. Mas você nunca tinha ouvido falar nesse rapaz, não é? Aposto que nem sabia que professores de escolas particulares são constantemente agredidos. Essas notícias raramente vazam do espaço da elite privilegiada. Suas vítimas raramente denunciam, são convencidos, ou melhor, intimidados a ficarem calados, para não perderem seus “ótimos” empregos em escola de “gente rica e educada”, e ter que conviver com os “marginais” das escolas públicas.
“_ Ele era um folgado”, foi isso que o rapaz disse, um folgado, “por isso, eu que não sou, que respeito o espaço do outro, resolvi matá-lo”, foi isso que ele quis dizer. Fico me perguntando sobre que educação esse rapaz teria recebido de seus pais. Será que aprendeu a ter limites?Será que ouviu nãos suficientes? Será que recebeu o afeto necessário para aprender a respeitar o direito à vida que toda forma de vida têm? Será que foi suficientemente cobrado em seus deveres, e cotidianamente lembrado de suas responsabilidades? Será que aprendeu a tolerar as diferenças, e a assumir as conseqüências de seus atos?
Vivemos a geração do playstation. A geração do vazio, do superficial. Pais entupindo seus filhos de presentes caros, de mídias diversas, de músicas e jogos vazios. Crianças crescendo cercadas pelo excesso, pelo exagero do ter, desprovidos da simplicidade do ser. Freqüentadores de escolas caras que preparam para a competição e não para a fraternidade e todos os outros conceitos importantes para uma saudável vida em sociedade. Filhos de pais que não ouvem, não vêem, não falam.Que não dão livros a seus filhos, muito menos conselhos, simplesmente os protegem.
Sim, protegem, estão sempre prontos para proteger seus filhos da péssima educação que lhes legaram. Imagino que já deitam em suas camas pensando no que farão, quando o telefone tocar na madrugada e forem seus “bebês”, ligando de seus celulares caríssimos, envolvidos em alguma “merda”, precisando de uma propina, um carro de fuga, um advogado.
Fico imaginando que foi assim que se sentiu o pai de Alexandre Nardone , quando o telefone tocou e era seu filho dizendo, “pai, joguei minha filha pela janela, preciso de ajuda”, de Rafael Bussamra, quando ouviu: “pai matei um skaitista, preciso de propina”, ou a mãe de Cáren Brum Paim, ao ouvir: “mãe, matei minha namorada, preciso de esconder o corpo”. Todos eles, e muitos outros como eles, ajudando seus filhos, tentando concertar, ou esconder a “merda”, que eles mesmos fizeram.
Não conheço os pais desse Hamilton Loyola Caíres, nem sei como estão reagindo, mas conheço bem o perfil de nossa classe média. Pais e mães fanáticos por ganhar dinheiro, por comprar, por aparentar. Que tem cotidianamente delegado a função de cuidar dos filhos ao playstation, às escolas, aos amiguinhos, que como eles, são “órfãos de pais vivos”, todos eles “senhores das moscas”, vazios, violentos, sem consciência social, sem consciência pessoal, perdidos na selva da globalização, escondidos atrás de redes sociais virtuais, colecionando amigos no orkut, seguidores no twitter, quando na verdade não têm nada a dizer e são incapazes de conviver em sociedade.
Realmente não tenho filhos, e de tanto receber notícias de jovens que agridem pessoas porque são negras ou homossexuais, que matam seus professores por que ficaram com nota baixa, que se formam profissionais universitários sem nunca terem lido um livro se quer... Tenho medo. Tenho medo de criar filhos com os valores que acredito serem essenciais para a vida e o convívio em sociedade, e acabarem, como tantos por aí, vítimas desses jovens, ou melhor, dessas famílias, ilimitadas e inconseqüentes, totalmente desprovidos desses valores. Tenho medo que meus filhos se tornem vítimas desses jovens educados pelo playstation .
Monique Pacheco
Professora e Bacharel em história pela PUC-MG
moniquenajara.eu@ig.com.br
blog: moniquenajaraapacheco.blogspot.com
Não sou mãe, não ainda, talvez por isso as pessoas fiquem irritadas quando critico alguns métodos de educação que tenho presenciado nas escolas por onde trabalho. “ É fácil dizer, você não é mãe”, “ É fácil por a culpa nos pais.” Escuto essas frases, sempre que chamo o pai ou mãe de um dos meus alunos à sua responsabilidade legal de zelar pela educação de seus filhos. Mas garanto que não precisa ser pai ou mãe para saber que alimentar hábitos de consumo exagerados, não cobrar responsabilidades, não impor limites, e não dar carinho, torna todo o resultado do processo de formação humana comprometido.
Estamos formando jovens intolerantes, insensíveis e criminosos. Parece fácil falar sobre isso quando lidamos com pessoas pobres, pretas e faveladas, a sociedade preconceituosa em que vivemos parece já esperar que desse grupo de excluídos saiam predadores sociais. No entanto o terreno se torna mais arenoso quando os tais predadores sociais são filhos da classe média, pessoas de pele clara, de carros novos, que estudaram em boas escolas, que se entupiram de danoninho, que ganharam os melhores presentes de Natal.
Na última terça-feira, (dia 8), um professor universitário de 39 anos foi vítima de um desses predadores. Assassinado em seu local de trabalho com requintes de torturas. Seu algoz? Hamilton Loyola Caíres, um jovem “universiotário”, que já havia sido expulso de outra faculdade por agressão a um professor. Mas você nunca tinha ouvido falar nesse rapaz, não é? Aposto que nem sabia que professores de escolas particulares são constantemente agredidos. Essas notícias raramente vazam do espaço da elite privilegiada. Suas vítimas raramente denunciam, são convencidos, ou melhor, intimidados a ficarem calados, para não perderem seus “ótimos” empregos em escola de “gente rica e educada”, e ter que conviver com os “marginais” das escolas públicas.
“_ Ele era um folgado”, foi isso que o rapaz disse, um folgado, “por isso, eu que não sou, que respeito o espaço do outro, resolvi matá-lo”, foi isso que ele quis dizer. Fico me perguntando sobre que educação esse rapaz teria recebido de seus pais. Será que aprendeu a ter limites?Será que ouviu nãos suficientes? Será que recebeu o afeto necessário para aprender a respeitar o direito à vida que toda forma de vida têm? Será que foi suficientemente cobrado em seus deveres, e cotidianamente lembrado de suas responsabilidades? Será que aprendeu a tolerar as diferenças, e a assumir as conseqüências de seus atos?
Vivemos a geração do playstation. A geração do vazio, do superficial. Pais entupindo seus filhos de presentes caros, de mídias diversas, de músicas e jogos vazios. Crianças crescendo cercadas pelo excesso, pelo exagero do ter, desprovidos da simplicidade do ser. Freqüentadores de escolas caras que preparam para a competição e não para a fraternidade e todos os outros conceitos importantes para uma saudável vida em sociedade. Filhos de pais que não ouvem, não vêem, não falam.Que não dão livros a seus filhos, muito menos conselhos, simplesmente os protegem.
Sim, protegem, estão sempre prontos para proteger seus filhos da péssima educação que lhes legaram. Imagino que já deitam em suas camas pensando no que farão, quando o telefone tocar na madrugada e forem seus “bebês”, ligando de seus celulares caríssimos, envolvidos em alguma “merda”, precisando de uma propina, um carro de fuga, um advogado.
Fico imaginando que foi assim que se sentiu o pai de Alexandre Nardone , quando o telefone tocou e era seu filho dizendo, “pai, joguei minha filha pela janela, preciso de ajuda”, de Rafael Bussamra, quando ouviu: “pai matei um skaitista, preciso de propina”, ou a mãe de Cáren Brum Paim, ao ouvir: “mãe, matei minha namorada, preciso de esconder o corpo”. Todos eles, e muitos outros como eles, ajudando seus filhos, tentando concertar, ou esconder a “merda”, que eles mesmos fizeram.
Não conheço os pais desse Hamilton Loyola Caíres, nem sei como estão reagindo, mas conheço bem o perfil de nossa classe média. Pais e mães fanáticos por ganhar dinheiro, por comprar, por aparentar. Que tem cotidianamente delegado a função de cuidar dos filhos ao playstation, às escolas, aos amiguinhos, que como eles, são “órfãos de pais vivos”, todos eles “senhores das moscas”, vazios, violentos, sem consciência social, sem consciência pessoal, perdidos na selva da globalização, escondidos atrás de redes sociais virtuais, colecionando amigos no orkut, seguidores no twitter, quando na verdade não têm nada a dizer e são incapazes de conviver em sociedade.
Realmente não tenho filhos, e de tanto receber notícias de jovens que agridem pessoas porque são negras ou homossexuais, que matam seus professores por que ficaram com nota baixa, que se formam profissionais universitários sem nunca terem lido um livro se quer... Tenho medo. Tenho medo de criar filhos com os valores que acredito serem essenciais para a vida e o convívio em sociedade, e acabarem, como tantos por aí, vítimas desses jovens, ou melhor, dessas famílias, ilimitadas e inconseqüentes, totalmente desprovidos desses valores. Tenho medo que meus filhos se tornem vítimas desses jovens educados pelo playstation .
Monique Pacheco
Professora e Bacharel em história pela PUC-MG
moniquenajara.eu@ig.com.br
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quinta-feira, 7 de outubro de 2010
É professor? Do Estado? Votou na gangue do Aécio? “Fi, cê tem “pobrema””
Após brigar, esbravejar, xingar e até ofender os nossos caros colegas professores, principalmente os da rede estadual que deram seu precioso voto para a gangue do Aécio, venho aqui me reiterar com um pedido de desculpas. Afinal professor, você não precisa de castigo, o castigo certamente lhe será dado nesses próximos quatro anos, você precisa é de ajuda.
Mas claro, para que possa ser ajudado, você precisa primeiro admitir que tem “pobrema”. (só não admita em público, pois pode correr o risco de ser agredido por algum colega que nesse momento está insano de raiva e decepção com os traidores da classe). Mas admita, para você mesmo. Diga em frente ao espelho. Meu nome é fulano, votei no Anastásia, no Aécio e no Itamar, tenho “pobrema” e preciso de ajuda.
Depois dessa difícil declaração de culpa, o segundo passo é descobrir o grau da patologia que lhe acomete.
Se você é do tipo que tem vergonha de dizer que votou, que prefere folhear uma revista, pedir receita de bolo, ou falar de futebol quando o assunto surge na sala dos professores, fique calmo. Seu caso é passível de cura.
Você sabe que votou errado, que agiu em um momento de fraqueza por medo de perder o 14º ou de a inconstitucional LC100 cair, haver um concurso e você perder a seu emprego. Calma é compreensível. Anos recebendo esse salário péssimo, sem condições para assinar uma revista, para fazer um curso de atualização, para comprar um livro, te deixou inseguro, com medo de não passar em um concurso público. A gente entende, você está com baixa auto-estima, se sente um profissional medíocre. É assim mesmo que a gangue do Aécio quer que você se sinta. Você é uma vítima do sistema.
O que resta a você agora, é tentar agüentar mais quatro anos de humilhação e procurar se informar e se preparar mais para perder esse medo de concurso que você tem. E claro, tentar se livrar do vício do 14º, aos poucos. Ao invés de usá-lo para pagar novas dívidas, use-o para investir em cursos de reciclagem, para comprar livros. Dessa forma irá vencer a gangue do Aécio com as armas deles mesmos.
Mas se você é do tipo que se orgulha de ter votado, que bate no peito para dizer que contribui com essa catástrofe, que defende a linha verde, (mesmo morando em Contagem,Betim, Esmeraldas, Nova Lima e adjacências interioranas, e jamais precisar passar por lá, até por que, o que que professor vai fazer em Confins? No máximo buscar um parente sem coragem de gastar 200 reais em Táxi). Que tem orgulho de ter em seu Estado um cartão postal tão lindo quanto a cidade administrativa, (que aliás é inadministrável, pois está afundando em solo argiloso, levando mais de dois bilhões de dinheiro público para o buraco). E se sente orgulhoso de saber que o achatamento de seu salário nos últimos oito anos, contribuiu com o “eficiente” choque de gestão, e por tanto, com a faraônica cidade adiministrativa...
Seu caso é mais grave. Está hipnotizado pelas centenas de propagandas do Aécio que passam o dia inteiro na televisão, e que estão em todos os jornais. Seu caso é tão grave que acreditou na “competência” de Aécio e Anastásia e votou no Itamar só por que eles pediram.
Seu tratamento é mais longo, vai precisar de um pouco mais de senso crítico. Por isso a primeira coisa a fazer é parar de assistir televisão e de ler o Super. Mas se essas forem as únicas fontes de entretenimento e informação que seu salário lhe permite, vai ter que fazer uma terapia diária, para parar de dar crédito á essas propagandas. Acredite meu amigo, é tudo mentira, sim mentira como coelhinho da páscoa, Papai Noel e aumento salarial, só ilusão. Não acredite no que dizem aqueles simpáticos atores globais, é tudo mentira.
É só você olhar para a escola em que você trabalha, parece com a da propaganda? Os hospitais são tão bonitos como os da propaganda? As pessoas que você conhece que usam os serviços públicos de saúde estão tão satisfeitos quanto os da propaganda? Você conhece alguma professora do Estado tão feliz e bem vestida como a da propaganda? Então meu filho, é tudo mentira. Mas agente te perdoa por ter sido enganado, afinal foram muito mais de oito milhões do seu dinheiro investidos nisso.
Diga, isso é mentira, toda vez que perceber que está sendo tocado por essas propagandas. Repita, e reflita, você tem mais quatro anos para se curar, e nós precisamos que você se cure. Ah! É muito importante que esse tratamento seja feito por toda a família, que a esse momento deve estar toda contaminada.
Mas meu amigo, se você só votou na gangue por falta de opção, sinceramente, tô com medo de você. Deve procurar ajuda urgentemente, pois é o mais nocivo de todos dado o seu perigo de contágio. Está alienado, sendo usado como massa de manobra do sistema, e considerando sua influencia direta com as crianças e jovens pelo exercício de seu papel social de formador de opinião, pode, somado á péssima qualidade de educação que essas crianças têm acesso e às famílias em que são criadas, infectar toda uma geração com sua apatia e falta de ideologia política.
Se ainda é jovem tem chance de cura. Procure se politizar urgentemente para parar de se influenciar por pesquisas, e sair do senso comum.
Mas se é do tipo que passou a vida toda trabalhando no Estado, que não lê, não discute política, acha que político é tudo igual, está esperando “só” mais dez anos para se aposentar e como já tem férias premio, biênio, qüinqüênio, triênio, para você tanto faz como tanto fez, você não tem cura, virou arma do sistema, objeto ativo de destruição das ideologias, deve ser tirado logo de circulação. Seu título de eleitor se tornou uma arma letal. Amigo, você não vota, comete crimes contra a sociedade. Acredito que votou em Pinduca, Newton Cardoso, João Bosco do New Texas, e até sei por que, por que eles nasceram na sua terra, foram seus vizinhos, te ajudaram quando veio da roça, asfaltaram seu bairro. Torço do fundo do coração para que se aposente logo.
E você colega de escola, que está revoltado com seus colegas eleitores da gangue, tente entender. “Es tem pobrema”. Estão todos doentes e precisam de ajuda e compreensão. Tente identificar o grau do “pobrema”. Nos primeiro e segundo casos você pode ajudar. Dê-lhes um abraço, diga que os entende e os perdoa, tenha paciência e persistência, pois eles vão resistir. O terceiro caso, dependendo das condições apresentadas acima está perdido, o melhor é se afastar e se imunizar com doses diárias de informação e senso crítico.
Boa sorte.
Ah! Já ia me esquecendo. Se você é rico, dono de empreiteiras de construção civil, de empresas de ônibus, de agencias de publicidade, de hospitais e escolas particulares, e só leciona por hobby. Desconsidere os dizeres à cima. Você não tem “pobrema” não. Votou certo. Rico tem mais é que votar na gangue do Aécio e em todos os outros candidatos do PSDB, por que vou te contar viu, o governim que é bom pros rico, benzadeus....
Monique Pacheco
Professora e bacharel em história pela PUC-MG
e-mail: moniquenajara.eu@ig.com.br
blog: moniquenajaraapacheco.blogspot.com
Mas claro, para que possa ser ajudado, você precisa primeiro admitir que tem “pobrema”. (só não admita em público, pois pode correr o risco de ser agredido por algum colega que nesse momento está insano de raiva e decepção com os traidores da classe). Mas admita, para você mesmo. Diga em frente ao espelho. Meu nome é fulano, votei no Anastásia, no Aécio e no Itamar, tenho “pobrema” e preciso de ajuda.
Depois dessa difícil declaração de culpa, o segundo passo é descobrir o grau da patologia que lhe acomete.
Se você é do tipo que tem vergonha de dizer que votou, que prefere folhear uma revista, pedir receita de bolo, ou falar de futebol quando o assunto surge na sala dos professores, fique calmo. Seu caso é passível de cura.
Você sabe que votou errado, que agiu em um momento de fraqueza por medo de perder o 14º ou de a inconstitucional LC100 cair, haver um concurso e você perder a seu emprego. Calma é compreensível. Anos recebendo esse salário péssimo, sem condições para assinar uma revista, para fazer um curso de atualização, para comprar um livro, te deixou inseguro, com medo de não passar em um concurso público. A gente entende, você está com baixa auto-estima, se sente um profissional medíocre. É assim mesmo que a gangue do Aécio quer que você se sinta. Você é uma vítima do sistema.
O que resta a você agora, é tentar agüentar mais quatro anos de humilhação e procurar se informar e se preparar mais para perder esse medo de concurso que você tem. E claro, tentar se livrar do vício do 14º, aos poucos. Ao invés de usá-lo para pagar novas dívidas, use-o para investir em cursos de reciclagem, para comprar livros. Dessa forma irá vencer a gangue do Aécio com as armas deles mesmos.
Mas se você é do tipo que se orgulha de ter votado, que bate no peito para dizer que contribui com essa catástrofe, que defende a linha verde, (mesmo morando em Contagem,Betim, Esmeraldas, Nova Lima e adjacências interioranas, e jamais precisar passar por lá, até por que, o que que professor vai fazer em Confins? No máximo buscar um parente sem coragem de gastar 200 reais em Táxi). Que tem orgulho de ter em seu Estado um cartão postal tão lindo quanto a cidade administrativa, (que aliás é inadministrável, pois está afundando em solo argiloso, levando mais de dois bilhões de dinheiro público para o buraco). E se sente orgulhoso de saber que o achatamento de seu salário nos últimos oito anos, contribuiu com o “eficiente” choque de gestão, e por tanto, com a faraônica cidade adiministrativa...
Seu caso é mais grave. Está hipnotizado pelas centenas de propagandas do Aécio que passam o dia inteiro na televisão, e que estão em todos os jornais. Seu caso é tão grave que acreditou na “competência” de Aécio e Anastásia e votou no Itamar só por que eles pediram.
Seu tratamento é mais longo, vai precisar de um pouco mais de senso crítico. Por isso a primeira coisa a fazer é parar de assistir televisão e de ler o Super. Mas se essas forem as únicas fontes de entretenimento e informação que seu salário lhe permite, vai ter que fazer uma terapia diária, para parar de dar crédito á essas propagandas. Acredite meu amigo, é tudo mentira, sim mentira como coelhinho da páscoa, Papai Noel e aumento salarial, só ilusão. Não acredite no que dizem aqueles simpáticos atores globais, é tudo mentira.
É só você olhar para a escola em que você trabalha, parece com a da propaganda? Os hospitais são tão bonitos como os da propaganda? As pessoas que você conhece que usam os serviços públicos de saúde estão tão satisfeitos quanto os da propaganda? Você conhece alguma professora do Estado tão feliz e bem vestida como a da propaganda? Então meu filho, é tudo mentira. Mas agente te perdoa por ter sido enganado, afinal foram muito mais de oito milhões do seu dinheiro investidos nisso.
Diga, isso é mentira, toda vez que perceber que está sendo tocado por essas propagandas. Repita, e reflita, você tem mais quatro anos para se curar, e nós precisamos que você se cure. Ah! É muito importante que esse tratamento seja feito por toda a família, que a esse momento deve estar toda contaminada.
Mas meu amigo, se você só votou na gangue por falta de opção, sinceramente, tô com medo de você. Deve procurar ajuda urgentemente, pois é o mais nocivo de todos dado o seu perigo de contágio. Está alienado, sendo usado como massa de manobra do sistema, e considerando sua influencia direta com as crianças e jovens pelo exercício de seu papel social de formador de opinião, pode, somado á péssima qualidade de educação que essas crianças têm acesso e às famílias em que são criadas, infectar toda uma geração com sua apatia e falta de ideologia política.
Se ainda é jovem tem chance de cura. Procure se politizar urgentemente para parar de se influenciar por pesquisas, e sair do senso comum.
Mas se é do tipo que passou a vida toda trabalhando no Estado, que não lê, não discute política, acha que político é tudo igual, está esperando “só” mais dez anos para se aposentar e como já tem férias premio, biênio, qüinqüênio, triênio, para você tanto faz como tanto fez, você não tem cura, virou arma do sistema, objeto ativo de destruição das ideologias, deve ser tirado logo de circulação. Seu título de eleitor se tornou uma arma letal. Amigo, você não vota, comete crimes contra a sociedade. Acredito que votou em Pinduca, Newton Cardoso, João Bosco do New Texas, e até sei por que, por que eles nasceram na sua terra, foram seus vizinhos, te ajudaram quando veio da roça, asfaltaram seu bairro. Torço do fundo do coração para que se aposente logo.
E você colega de escola, que está revoltado com seus colegas eleitores da gangue, tente entender. “Es tem pobrema”. Estão todos doentes e precisam de ajuda e compreensão. Tente identificar o grau do “pobrema”. Nos primeiro e segundo casos você pode ajudar. Dê-lhes um abraço, diga que os entende e os perdoa, tenha paciência e persistência, pois eles vão resistir. O terceiro caso, dependendo das condições apresentadas acima está perdido, o melhor é se afastar e se imunizar com doses diárias de informação e senso crítico.
Boa sorte.
Ah! Já ia me esquecendo. Se você é rico, dono de empreiteiras de construção civil, de empresas de ônibus, de agencias de publicidade, de hospitais e escolas particulares, e só leciona por hobby. Desconsidere os dizeres à cima. Você não tem “pobrema” não. Votou certo. Rico tem mais é que votar na gangue do Aécio e em todos os outros candidatos do PSDB, por que vou te contar viu, o governim que é bom pros rico, benzadeus....
Monique Pacheco
Professora e bacharel em história pela PUC-MG
e-mail: moniquenajara.eu@ig.com.br
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quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Por que ainda não aprendemos a lidar com a democracia?
É consensual a idéia de que brasileiro não sabe lidar com democracia. Não faz bom uso do seu voto, não sabe cobrar as promessas de campanha, não monitora seus representantes durante o mandato, recebe com passividade as notícias de uso ilegal do dinheiro e da função pública, e por fim, reelege os maus políticos sucessivamente.
Seria muita ingenuidade negar tal realidade, mas é também muita intransigência querer comparar a nossa jovem democracia com modelos europeus, consolidados em um processo de formação longo e gradual, que em pouco ou nada se assemelha com o nosso.
Se fizermos um panorama rápido e simplista da história da república brasileira, nos depararemos com um óbvio que incomoda, temos mais experiências em golpes políticos e regimes antidemocráticos do que em pleitos presidenciais.
A história da nossa república, que de pública não tinha nada, já começa com um golpe militar, tramado pelas elites brasileiras. Após o curto período militar, outro golpe, tramado em gabinetes aristocráticos coloca o poder nas mãos das oligarquias cafeeiras, que sufocavam e subjugavam a participação popular, usando a tal democracia apenas para consolidar, com eleições de fachada, decisões políticas tomadas muito anteriormente nas salas dos coronéis.
Com o fim da política oligárquica (dado através de outro golpe, diga-se de passagem), nosso pleno exercício democrático continuou aguardando por mais 15 anos, para poder entrar em cena. Foram anos de ditadura varguista, que por seu caráter carismático e paternalista, quase convenceu o povo de que ditadura era uma coisa boa. Ainda mais sabendo que totalitarismo era, nesse período, a última moda na Europa, e que para todo o mundo a expressão “participação popular” soava como ameaça comunista e instabilidade político-economica.
Acabada a Segunda Guerra, e paralelamente o governo Vargas, nossa democracia tenta novamente se estabilizar junto à cidadania brasileira. Ledo engano, a volta de Vargas “pelos braços do povo” mostrou mais uma vez que o país não estava preparado para lidar com ela. E após um curto período de liberdade que coincidiu com os equivocados governos dos J’s ( Juscelino, Jânio e Jango), a democracia “perde a liberdade condicional, e retorna à prisão”.
Foram vinte e um anos de ditadura, toda uma geração aprendendo a receber a política pronta, acreditando que falar sobre política era crime, quase pecado tentar libertá-la da “Bastilha” na qual vivia enclausurada, por representar “risco à ordem social”, estando aqueles que o tentasse, condenados à morte ou coisa pior.
Com o fim da ditadura militar e os quatro mal fadados anos do governo Sarney, a tal cidadania pode finalmente ter o tão esperado reencontro com a democracia. E aí o eleitor que em sua maioria jamais tinha elegido um presidente, resolveu escolher um que em nada tivesse a ver com o espírito senil dos militares que tão bem conheceram. Elegeram um homem jovem, bonito e esportista, tudo que o país precisava.
O restante da história, todos nós conhecemos, impeachment, vice no poder. O governo FHC, que não só inventou o real, mas também a reeleição presidencial, pela qual o brasileiro se apaixonou - talvez por um saudosismo varguista - e provou essa paixão com os dois mandatos de Lula, que pelo que parece, seriam três, se a lei assim permitisse.
Em síntese podemos perceber que o brasileiro tem pouquíssima experiência em eleger presidentes, fato que se soma com outros complicadores, como a falta de instrução, a dificuldade do eleitor de lidar com informações e de entender essa miscelânea partidária que enlouquece qualquer cientista político dado à falta de coerência e ideologia que permeiam as alianças.
Atualmente o país brinca de ser democrático, transforma o horário político em apresentações de “stand up comedy” com direito a humoristas profissionais. E pior, a tal democracia que se aproveita de personagens pouco convencionais para se dizer ampla e irrestrita, acaba por ser uma disputa de quem tem mais “amiguinhos ricos” e influentes, ou seja, para poucos, os mesmos.
Ainda de forma superficial, podemos concluir que a democracia no Brasil é pouco funcional principalmente porque é conservadora e tem orgulho de sê-la. Ainda aristocrática, decide as disputas eleitorais em gabinetes de grandes empresários. Têm apego à reeleição e a perpetuação de oligarquias e até teocracias no poder. Possui uma justiça eleitoral que parece seguir aquele já velho e conhecido critério do “você sabe com quem está falando?”. E pior, acusa o eleitor, confuso, imediatista e pouco instruído, (como de fato tem que ser, dada qualidade da educação pública do país), que exerce o voto por obrigação legal, e não por interesse ideológico, de ser o responsável pelas mazelas políticas do país.
Se hoje o eleitorado continua sendo massa de manobra de uma democracia debilitada, é porque foi vítima de uma construção política marcada muito mais pelo clientelismo e pelo poder do mando e da força bruta, do que pelo cultivo e valorização da participação popular.
Monique Pacheco
Bacharel e Licenciada em História
Blog: moniquenajaraapacheco.blogspot.com
e-mail: moniquenajara.eu@ig.com.br
Seria muita ingenuidade negar tal realidade, mas é também muita intransigência querer comparar a nossa jovem democracia com modelos europeus, consolidados em um processo de formação longo e gradual, que em pouco ou nada se assemelha com o nosso.
Se fizermos um panorama rápido e simplista da história da república brasileira, nos depararemos com um óbvio que incomoda, temos mais experiências em golpes políticos e regimes antidemocráticos do que em pleitos presidenciais.
A história da nossa república, que de pública não tinha nada, já começa com um golpe militar, tramado pelas elites brasileiras. Após o curto período militar, outro golpe, tramado em gabinetes aristocráticos coloca o poder nas mãos das oligarquias cafeeiras, que sufocavam e subjugavam a participação popular, usando a tal democracia apenas para consolidar, com eleições de fachada, decisões políticas tomadas muito anteriormente nas salas dos coronéis.
Com o fim da política oligárquica (dado através de outro golpe, diga-se de passagem), nosso pleno exercício democrático continuou aguardando por mais 15 anos, para poder entrar em cena. Foram anos de ditadura varguista, que por seu caráter carismático e paternalista, quase convenceu o povo de que ditadura era uma coisa boa. Ainda mais sabendo que totalitarismo era, nesse período, a última moda na Europa, e que para todo o mundo a expressão “participação popular” soava como ameaça comunista e instabilidade político-economica.
Acabada a Segunda Guerra, e paralelamente o governo Vargas, nossa democracia tenta novamente se estabilizar junto à cidadania brasileira. Ledo engano, a volta de Vargas “pelos braços do povo” mostrou mais uma vez que o país não estava preparado para lidar com ela. E após um curto período de liberdade que coincidiu com os equivocados governos dos J’s ( Juscelino, Jânio e Jango), a democracia “perde a liberdade condicional, e retorna à prisão”.
Foram vinte e um anos de ditadura, toda uma geração aprendendo a receber a política pronta, acreditando que falar sobre política era crime, quase pecado tentar libertá-la da “Bastilha” na qual vivia enclausurada, por representar “risco à ordem social”, estando aqueles que o tentasse, condenados à morte ou coisa pior.
Com o fim da ditadura militar e os quatro mal fadados anos do governo Sarney, a tal cidadania pode finalmente ter o tão esperado reencontro com a democracia. E aí o eleitor que em sua maioria jamais tinha elegido um presidente, resolveu escolher um que em nada tivesse a ver com o espírito senil dos militares que tão bem conheceram. Elegeram um homem jovem, bonito e esportista, tudo que o país precisava.
O restante da história, todos nós conhecemos, impeachment, vice no poder. O governo FHC, que não só inventou o real, mas também a reeleição presidencial, pela qual o brasileiro se apaixonou - talvez por um saudosismo varguista - e provou essa paixão com os dois mandatos de Lula, que pelo que parece, seriam três, se a lei assim permitisse.
Em síntese podemos perceber que o brasileiro tem pouquíssima experiência em eleger presidentes, fato que se soma com outros complicadores, como a falta de instrução, a dificuldade do eleitor de lidar com informações e de entender essa miscelânea partidária que enlouquece qualquer cientista político dado à falta de coerência e ideologia que permeiam as alianças.
Atualmente o país brinca de ser democrático, transforma o horário político em apresentações de “stand up comedy” com direito a humoristas profissionais. E pior, a tal democracia que se aproveita de personagens pouco convencionais para se dizer ampla e irrestrita, acaba por ser uma disputa de quem tem mais “amiguinhos ricos” e influentes, ou seja, para poucos, os mesmos.
Ainda de forma superficial, podemos concluir que a democracia no Brasil é pouco funcional principalmente porque é conservadora e tem orgulho de sê-la. Ainda aristocrática, decide as disputas eleitorais em gabinetes de grandes empresários. Têm apego à reeleição e a perpetuação de oligarquias e até teocracias no poder. Possui uma justiça eleitoral que parece seguir aquele já velho e conhecido critério do “você sabe com quem está falando?”. E pior, acusa o eleitor, confuso, imediatista e pouco instruído, (como de fato tem que ser, dada qualidade da educação pública do país), que exerce o voto por obrigação legal, e não por interesse ideológico, de ser o responsável pelas mazelas políticas do país.
Se hoje o eleitorado continua sendo massa de manobra de uma democracia debilitada, é porque foi vítima de uma construção política marcada muito mais pelo clientelismo e pelo poder do mando e da força bruta, do que pelo cultivo e valorização da participação popular.
Monique Pacheco
Bacharel e Licenciada em História
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quinta-feira, 1 de julho de 2010
Abaixo o sutiã e a violência à mulher
Há alguns meses vêm circulando em algumas revistas de opinião imagens de mulheres famosas em lugares e eventos públicos sem sutiã. Não, elas não estavam nuas, estavam muito bem vestidas, mas a censura estampada nas matérias à ausência da peça “totêmica” era tanta, que se as moças tivessem vestidas a lá “É o tcham”, teriam sido menos criticadas.
O sutiã é mais que uma peça íntima, é um símbolo do controle social, sobre o corpo da mulher. A mulher já conquistou lugares na sociedade antes apenas ocupados por homens, estão à frente das empresas, das tropas militares, da presidência de alguns países, mas não tem o direito de sair a rua com uma camiseta larga sem sutiã. É como se a nossa sociedade machista dissesse: Isso não, eu ainda tenho o controle sobre seu corpo.
Essa é a verdade que nenhuma mulher quer admitir. O corpo dela ainda não é dela. A mulher é ainda uma “costela de Adão”, o corpo dela é visto como uma propriedade social. São vários os indícios que confirmam essa afirmação, podemos citar, por exemplo, o olhar acusador que se lança sobre a mulher que opta por não ter filhos, e/ou principalmente, os altos índices de violência que as mulheres de todas as classes sociais sofrem diariamente, por pais, irmãos, cônjuges ou desconhecidos.
A sociedade chega até a, sem nenhum pudor, justificar estupros com frases do tipo:” Ah, mais com essa roupa, andando nesse lugar, nesse horário, ela estava querendo isso mesmo”.
Outro dia, um dos nossos “exemplares” jogadores de futebol, em uma de suas belas demonstrações de civismo disse a quem quisesse ouvir que era normal um homem “sair uns tapas na mulher, afinal quem nunca tinha feito isto?". Gastaram-se mais páginas nas revistas censurando a falta de sutiã do que a falta de decência desse cidadão, e seu desserviço prestado à sociedade.
Essa confissão deveria ser vista não como uma fala individual, mas como uma confissão social da violência à qual as mulheres são submetidas todos os dias, e sussitado maiores discussões sobre o assunto. Mas não foi o que aconteceu.
O assunto, claro foi enterrado, e esta semana também se enterrará(caso encontrem o corpo) mais uma das vítimas dessa violência de gênero.
O suspeito do crime? O mesmo autor da pérola à cima, o que sempre achou normal bater em mulher.
Mas o importante claro, é que a moça seja enterrada muito bem vestida ( caso o corpo esteja inteiro) e claro de sutiã. Pois dependendo da roupa que nela esteja em seu velório, pode alguém dizer: “Ah! mais usando roupas assim, dá pra ver que não era uma moça que merecesse respeito.
O sutiã é mais que uma peça íntima, é um símbolo do controle social, sobre o corpo da mulher. A mulher já conquistou lugares na sociedade antes apenas ocupados por homens, estão à frente das empresas, das tropas militares, da presidência de alguns países, mas não tem o direito de sair a rua com uma camiseta larga sem sutiã. É como se a nossa sociedade machista dissesse: Isso não, eu ainda tenho o controle sobre seu corpo.
Essa é a verdade que nenhuma mulher quer admitir. O corpo dela ainda não é dela. A mulher é ainda uma “costela de Adão”, o corpo dela é visto como uma propriedade social. São vários os indícios que confirmam essa afirmação, podemos citar, por exemplo, o olhar acusador que se lança sobre a mulher que opta por não ter filhos, e/ou principalmente, os altos índices de violência que as mulheres de todas as classes sociais sofrem diariamente, por pais, irmãos, cônjuges ou desconhecidos.
A sociedade chega até a, sem nenhum pudor, justificar estupros com frases do tipo:” Ah, mais com essa roupa, andando nesse lugar, nesse horário, ela estava querendo isso mesmo”.
Outro dia, um dos nossos “exemplares” jogadores de futebol, em uma de suas belas demonstrações de civismo disse a quem quisesse ouvir que era normal um homem “sair uns tapas na mulher, afinal quem nunca tinha feito isto?". Gastaram-se mais páginas nas revistas censurando a falta de sutiã do que a falta de decência desse cidadão, e seu desserviço prestado à sociedade.
Essa confissão deveria ser vista não como uma fala individual, mas como uma confissão social da violência à qual as mulheres são submetidas todos os dias, e sussitado maiores discussões sobre o assunto. Mas não foi o que aconteceu.
O assunto, claro foi enterrado, e esta semana também se enterrará(caso encontrem o corpo) mais uma das vítimas dessa violência de gênero.
O suspeito do crime? O mesmo autor da pérola à cima, o que sempre achou normal bater em mulher.
Mas o importante claro, é que a moça seja enterrada muito bem vestida ( caso o corpo esteja inteiro) e claro de sutiã. Pois dependendo da roupa que nela esteja em seu velório, pode alguém dizer: “Ah! mais usando roupas assim, dá pra ver que não era uma moça que merecesse respeito.
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